Leninismo e Bioleninismo

Por: Spandrell

Traduzido por Adamastor

            Então nós terminamos com a evolução inicial do sistema parlamentar liberal do Ocidente. Na economia, há esse grande conceito chamado de “mão invisível”. Em um ambiente livre, se há dinheiro a ser feito, alguém encontrará uma maneira de fazê-lo. Acontece o mesmo na política: em um ambiente político livre, se há poder a ser adquirido, alguém encontrará uma maneira de adquirí-lo. A economia e a política são realmente bem similares.

            Existe esse aspecto da teoria econômica chamado de “a teoria da firma”. Por que empresas existem? Por que todos não podem ser empregados autônomos? Isso é basicamente como costumava ser durante os tempos das guildas medievais. Por que somos todos escravos de corporações gigantes agora?

            Há muitas ideias sobre isso que nos são jogadas, mas a teoria padrão é que as empresas são construídas por causa de “custos de transação”. Basicamente, em um livre mercado, agentes econômicos individuais, por boas razões, não confiam tanto uns nos outros. Muitas pessoas por aí, não se pode realmente saber quem é bom e quem não é. Uma empresa hierárquica fixa as relações sociais e estabelece uma estrutura de confiabilidade e de responsabilidade que torna a ação econômica mais previsível e segura.

            A teoria liberal padrão da política era como se todos os agentes políticos fossem empregados autônomos. Mas, surpresa surpresa, empresas políticas, i.e. partidos políticos, se mostraram bem mais efetivos do que agentes políticos individuais. E, do mesmo jeito que empresas tendem a buscar um certo tipo de homem, não tão parecido com o velho artesão individual; os partidos políticos também tendem a selecionar certo tipo de pessoa. Uma que obedeça. Que possa ser confiável. Essa foi a semente do leninismo; e ah, cara, como essa semente cresceu.

            A questão das firmas, ou qualquer outra organização, é que não há limites fixos sobre o quanto elas podem crescer e sobre o quanto de coisas elas podem fazer. Um Estado é nada além de um bando de caras que então crescem até se tornar um exército que então conquista um território. Como um bando, os caras faziam um pouco mais do que beber cerveja e assaltar caravanas de comércio vulgarmente. Mas eles eventualmente evoluíram até um Estado que faz quase tudo. Peguemos algo perto de nós: A Companhia das Índias Orientais. Começaram comerciando especiarias. Então acabaram governando 400 milhões de pessoas. Por que? Havia marginalmente mais dinheiro a ser feito a cada etapa do processo.

            O mesmo aconteceu quando os partidos políticos começaram a se formar no século XIX. Os partidos se formaram a fim de assegurar o poder no parlamento. Mas, uma vez que você tem a máquina para conseguir poder, por que parar por aí? Há um monte de poder por aí fora do parlamento também, qualquer coisa que a constituição diga. Há também o executivo e o judiciário, pra começo de conversa. Existe também a imprensa, o poder de moldar opiniões. Há a educação, o poder de moldar as mentes das crianças e suas relações sociais enquanto elas crescem. Existem muitos e muitos grupos sociais afora, e eles todos têm dinâmicas de poder neles. Por que não devorá-los também? Se há pode para ser adquirido, alguém irá adquirí-lo. E as revoluções liberais todas foram sobre mostrar o poder a todos, disponível para serem agarrados.

            Bem, surpresa surpresa, as pessoas começaram a se movimentar para agarrá-lo. E, como com a mão invisível, a qual apenas constrói uma economia eficiente se você deixar ela fazer seu trabalho; a mão invisível da política também fez o trabalho dela. Firmas econômicas são construídas através da busca pelo lucro, e elas cresceram através das associações anônimas. Partidos políticos são construídos através do recrutamento de pessoas com baixos status ou pessoas comprometidas (i.e. potencialmente de baixos status) e com a promessa de distribuir status maiores para seguidores e eleitores depois de o poder ser conseguido.

            Nós todos sabemos o quão eficiente e sofisticados os mecanismos de busca de lucro evoluíram para ser. A política liberal foi também essa sopa primordial onde os mecanismos de conseguir poder evoluíram. E isso não levou muito tempo para uma um mecanismo forte, estável e enormemente contagioso evoluísse. O Socialismo. Ele sempre esteve por perto, mas Marx publicou o Manifesto Comunista em 1848, exatamente o ano no qual as revoluções liberais estavam matando todas as monarquias pela Europa.

            O socialismo refinou a política liberal, do mesmo jeito que a contabilidade de dupla entrada (double-entry bookkeeping) refinou a contabilidade negocial. A base da política eleitoral era prometer status maiores para pessoas de baixo status. Marx, começando com essa tradição onde judeus semi-assimilados não recebem a hipocrisia latente da sociedade anfitriã, não entendeu realmente a piada do igualitarismo liberal e simplesmente a levou a sua conclusão lógica. Não façam isso em casa, crianças. É esperado que você entenda a piada. Mas ele não entendeu. Liberdade e Igualdade? Ok, vamos abolir a propriedade privada então. Ei, espere um pouco. Você está falando sério? Abolir a propriedade privada?

            Ele não poderia estar falando sério. Digo, vamos lá. Propriedade privada. Isso não é só a base da civilização. Até mesmo tribos pré-agrícolas tinham propriedade privada. Até macacos gostam de possuir as coisas. Quão insano você tem que ser para dizer que a propriedade privada deve ser abolida? Quem diabos vai entrar nesse movimento? Bem, muitas pessoas. Veja, o capitalismo foi um grande negócio. Ele mudou como toda a sociedade funcionava. Em termos mais concretos, ele mudou que tipo de pessoa era de alto status e quem não era. Sobre o capitalismo, os mercadores mandavam. E isso fez muitas pessoas infelizes.

            Ei, algumas pessoas simplesmente não são capazes de obterem sucesso no capitalismo. Não é tão difícil. E, você sabe, as pessoas são diferentes. Não é culpa delas se de repente um judeu shtetl que não pode nem falar propriamente é muito bom em fazer dinheiro e agora de repente tem 1000x mais status do que elas têm; quando há 100 anos atrás elas teriam sido algum membro decente de uma sociedade feudal enquanto o judeu shtetl teria sido amplamente desprezado e odiado. Não ser bom em algo é uma droga. Então sim, as pessoas se ressentiram. E o socialismo catou exatamente esse ressentimento.

            É claro que o socialismo não precisou bradar abertamente para a abolição da propriedade privada. A sociedade feudal tinha propriedade privada. Eles poderiam simplesmente pedir impostos progressivos, bem-estar generalizado, leis de usura e essas coisas. Mas por que ser razoável quando não importa realmente? Um partido político não tem que cumprir suas promessas. Menos ainda um partido de esquerda! Um partido esquerdista está, por definição, lutando contra o stablishment; se eles não podem cumprir suas promessas eles podem sempre culpar os poderes estabelecidos. E as pessoas irão acreditar neles porque, bem, os poderes estabelecidos possuem poder. Ou costumavam possuir. E a inércia é algo relevante. As memórias das pessoas podem ser imprecisas, especialmente se elas têm um bom incentivo para não atualizá-las.

            Um partido político pode se safar ao mentir; um movimento político, i.e. uma versão vaga e embrionária de um partido político, pode se safar ao matar alguém. Eles não precisam entregar o que seja. Eles não precisam ser razoáveis. Eles não precisam nem ter sentido. Eles só precisam ser capazes de recrutar pessoas comprometidas. E, acredite, não ser razoáveis te dá mais seguidores leais do que ser razoável. Por que? De novo, porque pessoas razoáveis, bem ajustadas e normais simplesmente têm uma variedade mais ampla de oportunidades disponíveis para elas. Elas não precisam se comprometer com um plano louco. Elas podem simplesmente conseguir um emprego e viver uma vida normal. Para uma pessoa não razoável, mal ajustada e estranha, as opções dela na vida são bem mais limitadas. Juntar-se a um partido político louco o qual propõe a abolição das mesmas coisas que fazem a sociedade possível é, muito provavelmente, a melhor oportunidade que eles irão conseguir de obter maior status nas suas vidas. Então sim, por que não. Comunismo!

            De novo, há muitas versões de não razoável e mal ajustado. Algumas pessoas são genuinamente não tão boas ao lidar com a sociedade capitalista. Nascidos assim, sem culpa deles mesmos. Escritores, jornalistas, advogados medianos. Rios de tinta foram derramados ao se escrever sobre como os intelectuais são sempre majoritariamente esquerdistas. O que é estranho, uma vez que o comunismo não se mostrou muito legal para com os intelectuais. Mas o capitalismo dá altos status a precisamente ao tipo oposto de pessoas, o comerciante, e os intelectuais odeiam isso. Eles são naturalmente socialistas. Socialistas muito ávidos.

            Uma heurística fácil seria ver que a constituição natural de qualquer movimento político como sendo as pessoas que, em um grande jogo de soma-zero do status social humano, subiriam de status se aquele movimento político ganhasse poder. Mas não é bem assim, se é que não se pode saber o que vai acontecer. Os primeiros socialistas não tinham ideia do que iria acontecer se o socialismo conseguisse tomar o poder. Eles disseram que sabiam, mas ninguém vê o futuro. A incerteza é uma constante na vida humana. Qualquer afirmação em contrário é besteira ou, em linguagem científica, sinalização.

O que é real é o presente. E então a constituição natural de qualquer movimento político dissidente são as pessoas que de verdade, muito de verdade, nesse mesmo presente, estão perdendo nesse grande jogo de soma-zero do status social humano. Essas pessoas estão irritadas e ressentidas, e elas farão o que elas podem para bagunçar a sociedade do jeito que ela funciona no presente. Por boas razões. A vida é bem curta, e você só tem uma. Ninguém quer sair perdendo em status. As consequências disso são bem ruins. Sair perdendo na ordem hierárquica significa, em termos zoológicos gerais, acesso aos parceiros de pior qualidade ou nenhum parceiro. Então você aposta que todos esses intelectuais estavam irritados e querendo pular dentro de qualquer movimento que os prometesse que eles iriam destruir o capitalismo e aqueles gatos gordos malvados. Mesmo se isso tirasse deles tudo o que é bom da vida no processo. Quem se importa, isso somente tornou o processo mais engajador.

 De novo, a perspectiva de sair perdendo é subjetiva. Algumas Pessoas simplesmente são não razoáveis e mal ajustadas e não se contentam a não ser que eles tenham o poder absoluto e um harém com duas mil mulheres. Os movimentos políticos tendem a abrigar um número desproporcional desses, juntamente com pessoas que realmente saem perdendo não por suas próprias culpas. Muitas pessoas saem perdendo por causa de más escolhas que elas fizeram no começo de suas vidas, digamos, estudaram show de marionetes (puppetry) em vez de algo útil. Então eles saem perdendo, e por sua própria culpa, mas eles também não podem fazer nada a respeito disso, e então eles entram nas fileiras da oposição.

O ponto aqui não é sobre quem forma as fileiras da oposição. O ponto aqui é que, numa democracia, a oposição tem uma chance real de conseguir o poder. Eles tem a liberdade para tal. Eles são encorajados para tal. E também qualquer agente político esperto irá encontrar um jeito de organizar essas pessoas. Do mesmo jeito que qualquer agente comercial esperto irá encontrar um jeito de fazer dinheiro. Sempre haverá alguém. Um processo evolutivo irá produzí-lo.

E os ressentidos irão vencer porque a ascensão social é uma motivação muito forte. A esperança realmente vence o medo. Pessoas com uma oportunidade de conseguir status irão sempre ser melhores competidoras do que aquelas que só querem manter o que elas têm. Existem vários caminhos, mas a frase está na parede. Em uma “sociedade livre”, a política sempre irá se mover para a esquerda. Sempre.

É claro que o nível no qual ela se move para a esquerda depende do nível de liberdade no processo político. A primeira parte a se mover para a esquerda é a legislação, a qual é a parte mais aberta. De novo, como eu estava dizendo, existem outras partes em uma estrutura de poder. Os burocratas, os advogados. A imprensa, a qual provém todos eles de tópicos de debate. O sistema educacional, que os educa e educa suas crianças. É muito óbvio que, para qualquer agente político conseguir poder absoluto, ele tem de conseguir não só o parlamento; mas também deve conseguir todos esses outros. E eles são mais complicados que apenas os MPs. De novo, nós vimos o processo pelo qual os políticos se movem para a esquerda: um partido político precisa de pessoas leais que obedeçam a ordens; as pessoas com menos status tendem a ser mais leais, dado a sua falta de opções. Mas burocratas ou juízes são mais difíceis de controlar. Porque eles tendem a ser mais espertos. Eles têm que ser mais espertos, eles têm que fazer um trabalho de verdade. Estados tendem a tentar contratar pessoas inteligentes para trabalhar como burocratas ou juízes. A China os contratou (a China fez governadores trabalharem como juízes, ela não acreditava e não acredita na separação do executivo do judiciário) por meio de um famoso e difícil sistema de provas. Muito menos juízes e advogados. Eles têm que passar no exame de ordem.

Então como você controla essas pessoas? Você não pode fazê-lo descaradamente, como você faz com os políticos. Você não pode organizá-los por meio de um partido político formal. Isso é contra as regras. Esse é um ponto muito importante. Como você tem certeza que as partes não eleitas da estrutura de poder estão em harmonia com as partes eleitas? É aqui onde a máquina de poder esquerdista é dividida em dois caminhos. Eu chamo isso de ramificação do esquerdismo entre o Leninismo Formal e o Leninismo Distribuído, o quais então, por razões históricas, se tornaram o Leninismo clássico e o Leninismo Biológico. Historicamente, isso, denota muito bem o que Moldbug chamou de divisão Anglo-Soviética.

O esquerdismo na Rússia tem avançado, devagar porém firmemente, por muito tempo. A Rússia era formalmente uma autocracia absolutista governada pelo Czar. Mas, durante o século XIX, o país se abriu um pouco e, enquanto o capitalismo avançava, o esquerdismo cresceu na mesma proporção entre as pessoas que não estavam indo tão bem no capitalismo. Os tipos do Dostoyevski. Os quais a Rússia não tinha em pequena quantidade. Eu diria que a Rússia tinha uma quantidade desproporcional de esquerdistas porque, em vez de o capitalismo crescer organicamente como, digamos, na Holanda, ele veio do nada adentro de uma sociedade muito tradicional e devota. Então claro que todas essas pessoas que foram condicionadas por séculos a serem servos leais e bons cristãos não estavam gostando de toda essa liberdade para construir fábricas e fazer dinheiro. Então eles odiaram a coisa toda. A Rússia produzia muitos esquerdistas do tipo mais maluco antes mesmo que ela tivesse uma política eleitoral.

E então chega o Lênin e dá um golpe que realmente toma o poder como um comunista formal. E o quê Lênin fez? Ele queria poder absoluto. Como todos os outros, mas ele realmente teve a coragem e a vontade de tomá-lo para si. O jeito do Lênin de conseguir o poder era fazer o que eu acabei de dizer que você não podia fazer. Integrar toda a classe governante em seu partido político. Os juízes, os burocratas, os professores, a imprensa. Tudo dentro do partido. O Partido Comunista. Os partidos políticos, lembre-se, surgiram como um meio de garantir a disciplina e a organização na política eleitoral. Lênin somente estendeu a ideia para cada órgão de poder na Rússia. E isso funcionou. Isso funcionou como que um charme. Não foi fácil, de maneira alguma. Isso custou uma guerra longa e sangrenta. E então expurgos longos e sangrentos. E então mais outros. Mas após por volta de 20 anos o Stálin já tinha mais ou menos mantido tudo. Ele tinha adquirido o poder absoluto. Ele controlava o partido. E o partido controlava tudo.

Esse é o Leninismo clássico. Há muitos trabalhos sobre ele, se você quiser saber mais. E há a China agora, onde o mesmo princípio ainda se aplica. Ainda mais nesses dias, depois de o Xi Jinping apertar os parafusos em algumas áreas de poder que o Partido Comunista tinha afrouxado há algumas décadas. A questão sobre o Leninismo é quem depois de o poder absoluto ser atingido, a catraca esquerdista para de se mover. O País para de se mover para a esquerda. Sem ideias novas. Sem novos serviços para pessoas de baixo status e usá-los para derrubar o governo. Não, nada disso. O movimento esquerdista que sempre avança foi só um meio para um fim. Esse fim era o poder. Uma vez que o poder é adquirido, o esquerdismo se dissolve. Ele não realmente desaparece; ele deixa algum resíduo, com isso, esses Estados sempre tentam ter uma consistência ideológica com o quê eles disseram durante a sua fundação. As dinastias chinesas se puseram como a piedade filial dos imperadores, seguindo as ideias de seus avós fundadores; mais isso era só inércia.

Isso não foi como aconteceu na Europa Ocidental e na América do Norte. Nenhum partido esquerdista como esses conseguiu poder absoluto no Ocidente. Isso simplesmente não ocorreu. E não foi por falta de tentativas. Mas isso não se desenvolveu. Sobre o porquê, bem, aqui vem a minha teoria sobre aquela época. Os países que desenvolveram o capitalismo lentamente tenderam a produzir menos perdedores ressentidos do que impérios agrários que foram atirados repentinamente à modernidade. Essa não é bem a minha teoria original, eu a li em algum outro lugar, talvez alguém pode me lembrar quem a disse primeiro. De qualquer forma, o sucesso do Leninismo na Rússia e na China teve muita chance nela. Lênin poderia muito facilmente não tomar o poder, ele poderia ter perdido a guerra civil, ele poderia não ter tido aquele precioso dinheiro judaico de Wall Street para mantê-lo de pé. Sem Rússia Soviética, também sem China Comunista. Mas, de qualquer modo, isso aconteceu, e o socialismo foi muito forte nesses lugares com ou sem uma conquista real.

O que aconteceu no Ocidente, então? Existe um cara que pensou muito profundamente sobre isso. Por um longo, longo tempo. Muito porque ele estava na prisão, então ele teve muito tempo para estudar o problema. Eu estou falando de Antonio Gramsci. Ele era um agitador comunista na Itália que foi capturado por Mussolini e foi condenado a apodrecer na prisão. Durante esse tempo, ele pensou num problema bem razoável. Onde eu estou? O quê eu perdi? A porra do Lênin deu um golpe de estado e venceu, agora ele está no poder. Agora, olhe para mim, apodrecendo na prisão. O que deu errado?

A ideia dele, a qual foi imensamente influente, e por boa razão, foi que a estrutura de poder queria continuar a ser a estrutura de poder e você não poderia jogá-la fora e substituí-la com os seus garotos. Você pode tentar a sua sorte na política eleitoral, mas só que há muitos filhos da puta ressentidos que estão dispostos a votar pela abolição dos próprios fundamentos da vida social (propriedade), pelo menos em países ocidentais moderadamente prósperos. Nesses tipos de lugar se você quiser tomar o poder absoluto, você terá de colonizar a estrutura de poder muito lentamente. Você terá de influenciar as suas mentes. Você terá de alterar a cultura. Isso parece muito esotérico e espiritual, mas não é. Basicamente, Gramsci argumenta que você tem de tomar a imprensa e o sistema educacional, e lenta mas firmemente fazer em toda instituição com algum poder o que você faria com um partido político. Partidos políticos funcionam ao contratar pessoas leais ao buscar seus baixos status. Bem, encontre um caminho até a diretoria de cada escola, cada jornal, cada departamento governamental, cada conselho judicial. E para os mesmos propósitos. Administre um partido leninista distribuído disfarçado. Até que você tome conta de tudo.

Parece fácil, não é? Não, isso soa complicado como o inferno. E foi. Mas não tanto; afinal, há economias de escala bastante óbvias para influenciar a venda de produtos. Um cara conhece um cara que conhece um cara. A maior descoberta do século XX não foi a energia nuclear. Foi o poder dos cliques. Algumas pessoas em posições de poder aderindo-se a umas às outras é a força mais poderosa do universo. Elas podem fazer mentiras se tornarem verdades. Elas podem fazer privadas serem vendidas como arte, elas podem fazer mulheres se tornarem soldados combatentes. Elas podem fazer tudo. Foi muito fácil para os socialistas colocarem suas mãos na mídia; afinal, todos os jornalistas são naturalmente socialistas. Caras “espertos’, bons em escrever e sem talentos para gerar dinheiro. E o mesmo vale para professores. Ensinar não paga muito bem. E é exaustante, Por que alguém iria querer ser professor? Bem, pela glória maior do socialismo, é isto.

Então, uma vez que os socialistas colonizaram o sistema educacional, o partido gramcista leninista distribuído tinha feito a maior parte do trabalho. Afinal, as escolas são exatamente onde todos os outros centros de poder se intersectam. Montesquieu deve ter se achado muito inteligente quando disse que legisladores, burocratas e juízes deveriam ser independentes e estar em constante conflito. Bem, sim, mas onde eles mandam seus filhos para estudar? Para os mesmos lugares. E que as rezas digam, querido marquês, como você planeja que esses juízes, burocratas, legisladores, professores, jornalistas, banqueiros e industriais, que cresceram todos juntos, compartilharam uma vida isolada como uma classe dominante unida; como diabos você vai fazer que eles se freiem e contrapesem? Isso não pode funcionar. E não está funcionando. Eles se casam entre si e mandam as suas crianças para as mesmas escolas. Sim, eles vão fazer uma cena e brincar de teatro político, ou Kabuki, como os americanos, por alguma razão, gostam de dizer (como se apenas o Kabuki fosse falso e os outros teatros fossem reais), mas no final eles são todos uma classe dominante endogâmica e eles sabem disso.

O programa do Gramsci foi também chamado de “Longa Marcha às Instituições”. Uma lenta porém firme revolução cultural. Ela estava comleta na maioria dos países ocidentais por volta dos anos 60. E então todos nós sabemos o que aconteceu. Eu acho que o plano original do Gramsci era tomar o poder de uma maneira leninista clássica, uma ditadura do proletariado de certa forma. Mas esse barco já tinha zarpado na Europa Ocidental. Os trabalhadores eram ricos. Eles poderiam pagar carrões, casas e férias na Flórida ou na Espanha. Você não poderia motivá-los com clamores para enforcar os capitalistas e distribuir as propriedades deles entre as massas.

Então o partido estava estabelecido e em funcionamento. Pelos anos 60 os cliques socialistas, mais ou menos informalmente associados com partidos socialistas formais, estavam controlando a maioria das escolas, jornais, agências governamentais, tribunais e parlamentos. Mas você tinha de mantê-los unidos, mantê-los leais e obedientes. A primeira e clássica maneira era pegar os perdedores do capitalismo, i.e. pessoas inclinadas aos trabalhadores e aos burocratas, e prometê-los maiores status quando a revolução chegasse. Isso funcionou muito bem de 1848 até 1948. Diabos, eles conquistaram metade do mundo e estiveram muito perto de capturar o poder em boa parte do Ocidente também. Mas, por volta de 1960, no Ocidente eles precisaram de uma nova ideologia para deixar as pessoas motivadas e leais.

Então de novo, o que eles fizeram foi se apegar à estrutura: prometer alto status pra pessoas de baixo status. Mas mudar o conteúdo, adaptá-lo aos novos tempos. A sociedade ocidental de 1960 não era como a sociedade de 1860. Ela era muito mais rica, muito mais igual e muito mais agradável. As pessoas trabalhavam 8 horas por dia, tinham carros e TVs, as garotas saíam com muita facilidade e sempre havia uma festa para ir. Não havia absolutamente nenhuma razão de começar uma revolução comunista. Bem, houve a “revolução” de 1968 com aquelas coisas anti-Vietnã e aquilo tudo. Mas isso foi só uma grande festa ao ar livre, não uma verdadeira revolução. Os adolescentes de 1968 agora todos estão em posições de poder e eles não aboliram a propriedade privada.

Mas, de novo, a catraca esquerdista não é um tipo particular de pessoa. É um memeplexo com uma vida própria. Um vírus evoluído para concentrar poder, adotando ideias que ajudam no projeto e descartando aquelas que não ajudam. Socialismo econômico, organizar os pobres não estava mais funcionando no Ocidente. Mas o princípio é claro; eles só precisavam achar quem quer que tivesse baixo status então. E sempre há alguém, status é um jogo de soma zero. Sempre há alguém no topo e alguém na base. Até em sociedades igualitárias. O socialismo tinha realmente pressionado o Ocidente a se tornar uma sociedade bem igualitária e agradável por volta de 1960. Mas, mesmo no melhor dos mundos, há pessoas de baixo status. Mesmo se você reestruture a sociedade para que haja igualdade completa de oportunidades, mesmo que você organize uma revolução e dissolva cada hierarquia existente e comece tudo de novo. Sempre haverá pessoas de baixo status.

Porque sempre haverá a biologia. Algumas pessoas são altas, outras baixas. Algumas são bonitas, outras bem feias. Umas são magras, outras gordas. Algumas são agradáveis, outras irritantes. Umas são legais outras estranhas. Uns são inteligentes, outros burros. Algumas fazem boas escolhas, outras más escolas. Umas são obedientes à lei, outras são inclinadas ao crime. Os últimos de cada par será de baixo status em qualquer lugar da terra. Até no comunismo soviético sob o comando do Trotsky. Algumas pessoas simplesmente são ruins. Essa é a maneira que os genes funcionam.

E então, graças ao esquerdismo, até mesmo depois de ele conseguir influência, até depois de a classe trabalhadora desaparecer como algo, ainda havia boa quantidade de material para trabalhar para avançar a causa do controle completo. E então os grupos esquerdistas começaram a agitar status para pessoas afrodescendentes. Para Judeus. Para mulheres solteiras. Para drogados. Para vadias. Para gordos. Para homossexuais. Para lésbicas. Para muçulmanos agressivos. Para deficientes. Para retardados. Para os mentalmente insanos. Para travestis. Para todas as pessoas que tinham baixo status na sociedade ocidental. E que teriam baixos status em qualquer sociedade. Porque eles são ruins. Eles simplesmente não são muito produtivos. Por não culpa deles próprios. Algumas pessoas nascem altas, outras baixas. Umas inteligentes, outras burras. Umas empáticas, outras psicopáticas. Umas contentes com o que têm, outras ambiciosas com sede de poder. É assim que funciona.

E assim a Longa Marcha às Instituições que Gramsci primeiro idealizou como um jeito de o Partido Comunista Italiano fazer o que Lênin tinha feito terminou produzindo um diferente tipo de sistema Leninista, um distribuído e informal, em vez do sistema unificado e formal de Lênin, um o qual é modificado à promoção da escória da sociedade em vez da promoção da ideia de Marx do proletariado erroneamente oprimido. Marx não era um bom homem, mas ao menos ele tentou propor suas ideias de uma maneira que fizesse sentido. Das Kapital levou um grande trabalho para ser feito. Mas isso só foi algum contingente acidental ao seu tempo. O esquerdismo não precisa fazer sentido. Ele só precisa realizar o trabalho.

Ou ao menos marginalmente. Por causa do fato que nós todos temos o leninismo biológico como o princípio organizador de todos os centros de poder do Ocidente, e isso que continua ficando pior a cada momento, é porque não é só realizar o trabalho. O trabalho é concentração de poder. É atingir controle absoluto. O que Lênin fez. O que uma vez Lênin fez ou, mais precisamente, Stálin fez, estabilizou o conteúdo ideológico da esquerda. Cthulhu parou de nadar para a esquerda. Mas, aqui no Atlântico, Cthulhu esteve nadando por séculos, ficando mais louco a cada dia. Porque não há ninguém para pará-lo. Nós temos uma catedral, sim um partido leninista distribuído informal, assegurando muito eficientemente que só os seus membros cheguem em posições de poder e influência. Mas não há um Stálin. Nenhum Xi Jinping. Nem mesmo um mísero Putin.

Sobre o porquê disso, é uma boa pergunta. A constituição não escrita da política inglesa simplesmente é muito robusta. Liberdade Inglesa. Somente Oliver Cromwell domesticou tal besta, e não por muito tempo, e isso foi faz há algum tempo. O Ocidente é o império vassalo dos EUA, e os EUA só não empregam o absolutismo muito bem. Mas ele chegará lá, está chegando perto; os retornos só são grandes demais. Se existe um caminho para conseguir o poder alguém irá conseguí-lo. Tudo o que ele, ou mais provavelmente ela a esse ponto, tem que fazer é dizer: me deem o poder se não, todos vocês, todas aquelas mulheres gordas más com um trabalho de make-work office, todos aqueles estrangeiros vivendo de dinheiro público, todas aquelas pessoas simplesmente desagradáveis com estilos de vida insalubres; todos vocês, me deem o poder, se vocês não o fizerem, nós voltaremos para 1959, será ok ser branco, e todos vocês terão de arrumar suas camas, limpar seus quartos e realmente trabalhar. Vocês estarão por vocês mesmos.

Quanto tempo levará para isso? Não pode ser tanto.

Artigo Original: https://spandrell.com/2018/01/21/leninism-and-bioleninism/

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